segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Eis me aqui

Eis me aqui:
poeta.
calada
quieta.
Olhando o grande rio da vida passar dentro de mim.
Penso em você, em nós. Somos únicos e somos muitos em  medos e segredos que habitam nos vales mais sombrios da solidão humana.
Eis me aqui, poeta.
Aprendendo a amar. Sonhando amores e tatuando cicatrizes.
Bandeira, Baudelaire, Drummond...traz o belo e o imortal mas você define o amor - de forma simples e natural.

Gilvânia Souza.



Túmulo

Aqui jaz uma poetisa

⛥ 06/1975  e ♰ 12/2017

Quando uma poetisa não tem mais o que dizer é porque a incompreensão alheia, a desumanidade que a cerca  apagou a última centelha de poesia. 
Poetas são estrelas do invisível a espalhar os sonhos que ninguém vê. São seres sensíveis que amam por amar, que vivem reclusos em seu mundo porque não suportam a violência ao redor. Eles deixam a sua dor de lado e mesmo chorando limpa os ferimentos  alheios. No entanto, vem um cidadão sem senso de humanidade e com extrema maldade acusa. Agride. Denigre. Crime? Desde quando é crime acreditar no ser humano? Conceder-lhe uma segunda oportunidade? Trabalhar para resgatar aqueles que a sociedade marginaliza. O amor é livre e incondicional. Não se sujeita às suas regras. Regras burguesas e meritocratas. Ele se alegra com os pequenos gestos de humanidade. Quando uma poetisa se cala, morre uma estrela.
- Aqui jaz uma poetisa.

Gilvânia Souza

Testamento



 Eu deixo a vida como quem fecha um livro.
Com a poesia das tardes de outono a vestir o chão de douradas folhas.
Deixo aos meus filhos a liberdade das manhãs de setembro,em seu esplendor de flores de acácia e a verde relva a cobrir os campos prateados de orvalho. Na viração da tarde, a brisa suave a brincar com seus cabelos  e a segredar-lhes uma esperança.
Deixo também o inebriante aroma do vinho a seduzir a alma e aquecer o paladar nas frias tardes de inverno,  quando o céu avermelhado parece sangrar a solidão da alma e o vento gelado atravessa a serra e o coração.
Se pudesse deixaria a lua e sua magia, o pôr do sol e sua cores , e os livros de Guimarães Rosa para enfeitar a vida.
Para o João deixaria a música da madrugada que invade a vida e acalma a alma. E para você, Maria, a coragem do sol que se ergue todas as manhãs para iluminar os dias que nunca são iguais.

Gilvânia Souza.

Dolo

PWN, 20 de Dezembro de 2017

Tenho medo.
Você está morrendo aos poucos a cada dia dentro de mim. Ou melhor, estão matando você a cada dia.
Isso é uma espécie de homicídio não tipificado no código penal. Mas, tem todos os elementos de um crime, inclusive o dolo!
E eis me aqui: refém do tempo e da distância, do silêncio e da maldade.
Sinto sua ausência, mas não como antes.
Ainda sinto seu cheiro quando fecho os olhos e sonho com você, mesmo antes de dormir.
O tempo destrói todas as coisas, até mesmo colunas de mármore. Imagina, corações de cera!
E eu tenho tanto medo!

Gilvânia Souza.

Véspera de Natal

É véspera de natal.
A casa vazia. A alegria encolhida atrás da porta do banheiro. Sinto-me sozinha.
Penso em você.
O mundo é dos pares. Sou ímpar.
Não tenho lugar.
Tento pensar em outras coisas, mas o pisca-pisca intermitente diante da sacada não me deixa concentrar.
E além de tudo tem você.
E seu silêncio.
Seu sumiço diplomático.
Não sei dizer amém para a crueldade impune.
Esqueço-me de que é natal, ou quase.
Mas, agora já é tarde.

Gilvânia Souza.

Natal

 PWN,  25 de Dezembro de 2017

Hoje eu parti
: sem nem ao menos ter chegado.


Gilvânia Souza

Portas do sol


O tempo destrói todas as coisas

: os amores
: as lembranças

- está destruindo você.

Gilvânia Souza
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